Prólogo

“As quatro criaturas aladas surgiram do nada. Materializaram-se de meus sonhos e sobrevoaram o caos. Eram magníficas. Cada uma tinha uma cor e um aspecto diferente. Do topo da Colina Sagrada eu as admirei por horas, mas algo saiu errado. Elas tinham poder demais. O gigantesco Dragão Vermelho foi o primeiro a atacar seus iguais. Ele investia furiosamente contra o Dragão Negro destruindo todo o princípio da minha criação. Em pouco tempo meu sonho estava em pedaços. O caos voltara a reinar. Precisava pará-los. Tinha que impedir a destruição. Ainda não sabia como.
A idéia de lacrá-los me veio à mente. Parecia impossível que eles convivessem pacificamente. Precisavam ser afastados. Cada um deveria reinar sobre um canto daquele novo mundo, ou não haveria mundo. Lacrei primeiro o Dragão Vermelho. Era o mais impetuoso e impulsivo dos quatro. Coloquei em seu comprido pescoço uma gema vermelha e concentrei nela boa parte de meu poder. Aquela gema era o lacre do Dragão. Ela aprisionava seus poderes e o catalisava. Nomeei-o Ninrod, o grande Dragão-Sol. Em seu pescoço, além do lacre, coloquei também trezentos e sessenta e quatro diamantes que representavam, junto a grande gema-lacre vermelha, o ciclo de Ninrod. A gema acumularia seu poder que só poderia ser dissipado uma única vez ao ano, no seu dia, no topo da Colina Sagrada.
A segunda criatura a ser lacrada foi o enorme Dragão Negro. Era o oposto de Ninrod. Sua pele escura e reluzente absorvia todo o calor do Dragão Vermelho e o extinguia. Não era selvagem e impetuoso, mas era letal. Silencioso e sereno, no entanto, avassalador. Nomeei-o Selene, o grande Dragão-Lua. Com poder equivalente ao outro Dragão, sua gema-lacre consumiu mais uma boa parte de meu poder. Selene também possuía um dia só seu, e reinaria a noite para jamais se encontrar com seu oposto. A arquitetura de seu lacre era igual ao anterior, trezentos e sessenta e quatro diamantes, um para cada noite, e uma grande gema-lacre azul.
Por último lacrei os dois Dragões restantes. Eram seres pacíficos, mas extremamente poderosos. Dotados de discernimento e amor, utilizavam seus poderes para criar e não para destruir. Nomeei o grande Dragão Marrom, Rhea, e o grande Dragão Branco, Éolo. Suas gemas foram feitas de uma magia mais branda, mas também obedeciam as regras anteriores. Cada um possuía trezentos e sessenta e quatro diamantes e uma gema-lacre. Verde para Rhea, o Dragão-Terra e transparente para Éolo, o Dragão-Ar.
Meus poderes se esvaíam rapidamente. Sentei no topo da Colina Sagrada e os vi construir o mundo com o qual sonhara. Cada um deles controlando um dos quatro elementos e criando o mundo do Fogo, do Gelo, da Terra e do Vento. Magnífica sincronia. Ao contemplar do alto, aquela grande terra, senti a falta de algo. Senti que faltava vida. Rhea e Éolo pousaram suavemente ao meu lado e perceberam a falta que eu sentia. Uma suave brisa soprou do Dragão-Ar e a vida inflou a terra de Alluim. As árvores, as plantas, as águas e os vulcões iniciaram a sua vida com aquele sopro.
Meu último pedido às minhas maravilhosas criaturas foi que criassem vocês, Homens de Alluim. Foi assim que Rhea moldou seus corpos e Éolo lhes soprou a vida. Ninrod lhes deu a força e Selene, o dom da longevidade. Quatro homens e quatro mulheres. Dois para cada canto desse mundo. Dois para cada Dragão. Rhea e Éolo criaram outros homens e outras mulheres, mas eles devem seguir os caminhos que escolherem. Eles viverão menos, e serão mais fracos. Cabe a vocês protegê-los. Cabe a vocês governar. Governem esse mundo. Governem com sabedoria e justiça. Governem com igualdade. Governem com amor. Jamais pervertam o meu sonho. Mantenham o equilíbrio e sejam felizes. Isto é tudo que tenho para dizer a vocês. Esta é a base do ensinamento que lhes deixo. Esta deve ser a Ordem do Dragão.”
Depois destas palavras Eros nos entregou quatro relíquias reais, e se dissipou pelo ar. Cada relíquia era a chave do lacre de cada um dos Dragões. Elas deveriam ser guardadas por nós, herdeiros dos elementos e jamais deveriam ser utilizadas. Um último homem foi moldado com a terra da colina e a vida lhe foi soprada. Nós o chamamos de Aknet, o primeiro sacerdote da Ordem do Dragão, o mais sábio dentre nós.
Os Dragões partiram cada um para um canto de Alluim e ergueram as fundações de nossas grandes cidades. Pareciam diferentes, centrados. Como se Eros tivesse sido incorporado a eles. Não me pareceram bestas, mas divindades. Dotados de consciência. Racionais. Podia ouvi-los em minha mente. O povo ergueu um grande Templo na Colina Sagrada, o Templo da Ordem do Dragão. Muitos migravam constantemente para o topo mais alto no centro de nossa terra para ouvir os ensinamentos de Aknet e espalhá-lo pelos quatro cantos de Alluim.
Os herdeiros tomaram seus lugares na liderança das quatro Cidades Antigas e ali erigiram Templos para os Dragões que as construíram. As relíquias foram guardadas em segurança, e os Dragões se esconderam sob as grandes Cidades sem jamais serem vistos novamente. O equilíbrio só poderia ser mantido respeitando as leis da Ordem do Dragão e mantendo as relíquias em segurança. Uma vez ao ano, cada um dos Dragões deveria liberar seu poder no topo da Colina Sagrada, cada um em seu dia. O poder se dissiparia pela terra e iniciaria um novo ciclo, renovando o equilíbrio. Nada deverá comprometer esse sutil equilíbrio criado por Eros, a nossa existência dependerá disto.
(Manuscrito feito por Arod, primeiro Rei do Fogo, no ano 60 da criação).